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O Inter estará pronto dia 16?

Um a um

7 de mai de 2009

Pra dar o apito inicial e começar em uma goleada de letras, um texto inédito da escritora Micheliny Verunschk.

E lá ia Biu Neguinho, pra cima e pra baixo com seu surdo ecoando nos quatro cantos da cidade: Esse jogo não é um a um, se meu time perder tem zum-zum. Esse jogo não pode ser um a um... Daí a pouco o pequeno estádio municipal, vizinho a minha casa, se agigantava, lotado, e os heróis da pelota na peleja e bola vai e bola vem, redondinha como a lua cheia, e o juiz é ladrão e olha o frango, goleiro!!! E o surdo ecoando agora dentro do estádio: É encarnado, preto e branco. É encarnado e branco. É encarnado, branco e preto. É encarnado e preto. Uma festa!

Do lado de fora do estádio, só o doido e eu, e claro, uns poucos transeuntes distraidos, esquecidos da grande confraternização em torno da bola. Nas mãos dele uma pedra pontuda e enorme que, de quando em quando, atirava sobre os destroços de um coco, dizendo com um jeito engraçado de ter raiva: Ah, se isso fosse a cabeça de um menino! Ah, se isso fosse a cabeça de um menino! De quando em quando os gemidos da torcida. Prazer, frustração? Eu não sabia, encantado que estava por aquele homem maltrapiho e desequilibrado. Tão encantado a ponto de perder o acontecimento histórico: pela primeira vez o Vermelhão recebia um time da capital.

O doido queria se aproximar de mim, eu sabia. Falava alto. Chegava perto. Retrocedia. Talvez estivesse intimidado pelo portão que nos separava. Daí me sentei no batente. Evitei olhar muito, vai que se zangava e jogava a pedra na minha cabeça e saía pelo mundo jogando pelada com ela? E essa imagem me lembrou um samba, como era mesmo? Foi aí que ele sentou junto e riu desdentadamente: Tem comida aí? Tinha sim, coloquei feijão, arroz e bife  na cuia que já fora uma lata de queijo-do-reino e perguntei quem era ele.

Foi aí que se libertou uma cachoeira de frases soltas que aos pouquinhos delinearam sua história, falsa ou verdadeira, mas sua história: Sou doido por causa de um catimbó de uma cabôca lá das Alagoas. Sou Zé Ferreira, sim senhor, seu criado. Gosto do padrinho Ciço, um santo. Lampião não, que era um bandido miserave. Não me fale em Lampião, já disse. Bom mermo é dançar samba de coco. Ah, se isso fosse a cabeça de um menino! Ah, se isso fosse a cabeça de um menino! E lá voava a pedra para espatifar a cabeça imaginária.

A boca, cheia de feijão ria gostosamente: Gosto mermo é de pipoca e de mulé, que elas têm uma fulôzinha escondida por debaixo da saia. Já viu? Levantou-se, cantou uma ladainha e fez o sinal-da cruz: Cachaça num bebo que me dá umas agonia nos nervo. Fico vendo alma. Mas quarquer mil-réis o cão atenta, o senhor sabe. E então, o delírio da torcida: o grito, o gol, a risada dele pra moça assustadiça do outro lado da calçada: Ei, dona! Mostre pra eu a fulôzinha, mostre. E para mim: Tem pipoca aí? Entrei e trouxe água, não, não tinha pipoca. Seus olhos zangados me encararam e lá foi ele jogando de novo a pedra contra a cabeça do menino, o coco que já não era mais que um bagaço: Ah se isso fosse... Fim do primeiro tempo.

Segundo tempo. Nem bem recomeçou o jogo, novo delírio, o grito inequívoco, outro gol. E ele falando, cantando coisas sem sentido, andando de lá pra cá. Não esquecia a pipoca, nem o coco. De repente, parou, me olhou muito sério e perguntou bruscamente: E o senhor, quem é? Ri, pensei um pouco e respondi, me achando esperto: Sou só um poeta. Ele riu muito, gargalhou, e depois me olhou extremamente sério: Pois o senhor afine muito bem as corda do seu juízo, senão vai terminar nas correntes, feito eu. Disse isso e foi embora, sumindo para sempre, chutando o bagaço do coco e de quando em quando atirando a pedra sobre ela: Ah, se isso fosse a cabeça de um menino!

O jogo terminou e Biu Neguinho vendo minha cara estupefata esboçou um sorriso desanimado e falou: Bem fez o senhor de não ter ido ao jogo… Um a um, empate.

1 comentários:

Anônimo disse...

Beleza de conto, golaço da Micheliny. Para quem não sabe, ela engrossa as fileiras da gente talentosíssima (nas letras e nas artes em geral) que devota amor ao Santa Cruz, o clube da maioria do povão pernambucano, o clube da torcida mais apaixonada do Brasil, que não deixa de lado seu amor nem mesmo agora, quando o time está numa famigerada série D. Mas sairemos rapidinho de lá, ah! sairem sim, podem escrever!

Julio Vila Nova

19 de junho de 2009 23:13

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